Autor: Gustavo Figueiredo
Categoria: Educação, Autoconhecimento e Sociedade
Tempo de Leitura Estimado: 12 minutos
Se a gente parar para pensar, passamos a vida inteira no modo automático. Acordamos, batemos o ponto, resolvemos as urgências, pagamos os boletos e, quando a noite cai, simplesmente apagamos para recomeçar tudo no dia seguinte. Raramente paramos para questionar os alicerces invisíveis que sustentam a forma como pensamos, trabalhamos e, principalmente, como educamos aqueles que estão ao nosso redor.
Hoje, quero convidar você a pausar o relógio. Vamos fazer um exercício de honestidade brutal e de profunda reflexão. Pegue uma folha de papel em branco ou abra o bloco de notas do seu celular. O desafio é simples de entender, mas incrivelmente complexo de executar: organizar uma lista das nossas crenças mais íntimas sobre a educação.
Para que a nossa mente não escape do foco, todas as frases devem começar com a mesma expressão: “Na educação, acredito que…”
Como não posso pedir que você faça algo que eu mesmo não tenha coragem de fazer, vou abrir o meu próprio caderno aqui, na sua frente. Quando passo as madrugadas revisando as entrelinhas da LDB ou do ECA, e quando mergulho profundamente no referencial teórico de autores como Léa Tiriba — entendendo que o ser humano precisa ser visto na sua totalidade e em conexão com a vida —, esta é a lista que pulsa na minha cabeça:

- Na educação, acredito que o afeto sempre precede a cognição. Ninguém aprende verdadeiramente quando está paralisado pelo medo ou pela fome.
- Na educação, acredito que o erro não é um pecado a ser punido com uma caneta vermelha, mas a principal bússola que aponta o caminho do aprendizado.
- Na educação, acredito que a sala de aula não tem paredes. Nós educamos muito mais através do nosso exemplo silencioso na mesa de jantar ou na recepção de um hospital do que com belos discursos teóricos.
- Na educação, acredito que o objetivo final não é formar máquinas de acumular dados, mas seres humanos capazes de formular as perguntas certas.
O Choque de Realidade: Somos Conservadores ou Inovadores?
Depois de escrever as suas próprias crenças, deixe o papel descansar por alguns minutos. Tome um café. E então, volte a ler a sua lista com os olhos de um observador externo.
Aqui mora o grande conflito da nossa geração: no papel, o nosso discurso costuma ser lindo e libertador. Nós usamos palavras modernas, falamos de empatia, de autonomia e de pensamento crítico. Mas, quando olhamos para a nossa prática diária, será que as nossas atitudes não continuam profundamente conservadoras?
Nós dizemos que acreditamos no diálogo, mas muitas vezes exigimos obediência cega e silêncio absoluto de quem é mais novo ou de quem está em uma posição subordinada no nosso trabalho. Nós defendemos que o erro faz parte do processo, mas nos torturamos internamente (e perdemos a saúde mental) ao primeiro sinal de falha em um simulado, em uma prova ou em um projeto.
Nós somos a geração de transição. Fomos educados sob a cartilha do século XIX, que enxergava o aluno como um balde vazio a ser enchido de informações. Mas hoje, os avanços das pesquisas na neurociência, as discussões sobre as competências socioemocionais na BNCC e os assustadores índices de ansiedade entre os jovens nos mostram, de forma incontestável, que esse modelo antigo faliu.
O Paradigma Emergente: A Arquitetura de um Novo Tempo
A ciência da educação moderna aponta para um paradigma emergente. O que isso significa na prática? Significa que a sociedade não precisa mais de pessoas que apenas obedeçam e decorem; o mundo clama por pessoas que saibam se adaptar, colaborar, resolver conflitos e manter a sanidade mental em um cenário de incertezas.

Para ajudar a digerir essa mudança de época, costumo revisitar as lições do filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, especialmente no seu livro “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro“. Nessa obra, que deveria ser leitura obrigatória não só para professores, mas para pais e líderes de qualquer setor, Morin nos alerta sobre a urgência de ensinar a “condição humana”. Ele nos mostra que a fragmentação do conhecimento (estudar matemática separada da história, que é separada da ética) nos impede de entender os problemas reais e complexos da vida. O paradigma emergente exige que a gente una as peças. Exige que a nossa inteligência técnica ande de mãos dadas com a nossa sabedoria emocional.
É como a clássica e atemporal canção “Tempo Rei”, de Gilberto Gil. Quando a música diz “Tudo, tudo, tudo vai, tudo é / Tudo, tudo, tudo foi, tudo é / Nada, nada, nada permanece”, ela nos embala na aceitação de que o velho precisa dar lugar ao novo. Se o tempo transforma as rochas, como é que nós, seres humanos em constante evolução, queremos manter nossas práticas educativas paradas no tempo? O paradigma emergente é exatamente isso: aceitar que precisamos desaprender os velhos hábitos autoritários para reaprender a ensinar com inteireza e respeito.
A Minha Reflexão Para a Sua Jornada
Nós não precisamos ter vergonha das nossas raízes ou das crenças que herdamos. A verdadeira Arquitetura do Equilíbrio é construída quando temos a humildade intelectual de olhar para o que acreditávamos ontem e dizer: “As pesquisas avançaram, a sociedade mudou e, hoje, a minha mente se expandiu”.
Se as suas práticas educacionais — seja com seus filhos, com sua equipe de trabalho ou consigo mesmo nos momentos de estudo árduo — ainda são pautadas pelo medo, pela cobrança excessiva e pela inflexibilidade, hoje é um excelente dia para substituir essas crenças.
Deixo aqui o meu convite e um desafio: Faça a sua lista do “Na educação, acredito que…”. Seja honesto até doer. E, amanhã, escolha apenas uma dessas crenças e tente aplicá-la, na prática, nas suas relações. O mundo muda não quando a gente escreve teorias bonitas, mas quando a gente tem a coragem de viver o que escreve.
Referências
- MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2000. .
- TIRIBA, Léa. Educação Infantil como Direito e Alegria. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015.
- BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: MEC, 2018.
- GIL, Gilberto. Tempo Rei. Intérprete e Compositor: Gilberto Gil. Álbum: Raça Humana (1984).