Autor: Gustavo Figueiredo
Categoria: Educação, Saúde Mental e Autoconhecimento
Tempo de Leitura Estimado: 10 minutos
Sabe aquele momento em que você precisa redigir um e-mail importante no trabalho, fazer uma declaração para alguém que ama ou simplesmente colocar no papel uma ideia que está fervilhando na sua cabeça, e de repente… você trava? A tela pisca, a folha em branco parece olhar de volta para você com um ar de deboche, e o coração acelera. Um pensamento silencioso cruza a sua mente: “Eu não sei escrever”.
Se você sente esse aperto no peito, eu quero começar a nossa conversa de hoje lhe tirando um peso gigante das costas: a culpa não é sua. E isso não é um problema de falta de inteligência.
Na minha vivência observando o comportamento humano, as angústias e a saúde mental aqui nos corredores dos hospitais, percebo o quanto a nossa autoestima intelectual foi machucada lá atrás. Nós passamos, em média, doze anos da nossa vida dentro de uma sala de aula. Como é possível sair de lá com tanto medo de juntar palavras?
Foi exatamente essa a angústia que me atravessou nos últimos dias ao me debruçar sobre um livro brilhante, que serve como um espelho para todos nós: “A escola que (não) ensina a escrever”, da professora e pesquisadora Silvia M. Gasparian Colello. A obra dela não é apenas uma crítica à educação; é uma análise precisa de como o nosso silêncio foi construído.
A Prisão da Caneta Vermelha e da Cópia da Lousa
Pense por um instante na sua infância escolar. O que era “escrever” para você?
Para a imensa maioria de nós, a escrita nunca foi apresentada como uma ferramenta mágica para gritar ao mundo o que sentíamos. A escrita nos foi apresentada como um castigo, como um exercício de coordenação motora ou como um teste de obediência. A professora enchia a lousa de textos sem sentido prático (quem não se lembra do famoso “Ivo viu a uva”?) e a nossa única missão era copiar sem borrar o caderno.
Silvia Colello nos mostra no seu livro que a escola tradicional cometeu um pecado gravíssimo: ela separou a escrita da vida real. Nós fomos ensinados a escrever textos que não seriam lidos por ninguém, a não ser pelo professor armado com uma caneta vermelha, caçando desesperadamente os nossos erros de vírgula e de acentuação.
Quando a gente escreve apenas para ser avaliado, e nunca para ser compreendido, o cérebro entra em modo de defesa. A escrita deixa de ser uma ponte entre você e o outro e se torna um campo minado. É por isso que, na vida adulta, a página em branco nos causa tanta ansiedade. Nós ainda estamos esperando a caneta vermelha cair sobre a nossa folha.
O Resgate da Autoria: A Escrita Como Ferramenta de Vida
O que o livro de Silvia nos convida a fazer — e que nós precisamos aplicar na nossa própria Arquitetura do Equilíbrio — é entender que a língua portuguesa não é um fóssil guardado em um museu gramatical. A língua é viva.
Nós não precisamos escrever como Machado de Assis para que a nossa voz tenha valor. A escrita precisa de um interlocutor e de um propósito. Você escreve para reclamar de um direito seu no bairro, escreve para desabafar em um diário quando a ansiedade bate forte, escreve para deixar um bilhete de afeto na porta da geladeira.
Quando penso na libertação que é perder o medo das palavras, sempre me vem à cabeça a música “Palavras”, eternizada pelos Titãs (composição de Marcelo Fromer e Sérgio Britto). Quando eles cantam com toda a força “Palavras não nascem amarradas / Elas saltam, se beijam, se cruzam…”, é uma crítica contra aquela escrita engessada da escola. A música nos lembra de que as palavras são nossas. Elas servem para fazer poesia, para fazer barulho, para pedir socorro e para amar. Elas não podem ficar presas na nossa garganta por medo de um erro de ortografia.
Como Desatar Esse Nó Hoje?
Se o sistema escolar não nos ensinou a amar a escrita, cabe a nós, como adultos donos da própria história, fazermos essa reparação. A Pedagogia do Recomeço também se aplica aqui.
Como a gente faz as pazes com a escrita?
- Desligue o seu “Revisor Interno”: Quando for escrever algo, seja um relatório ou um desabafo, apenas escreva. Deixe as palavras jorrarem. Não pare no meio da frase para ver se a vírgula está certa. O fluxo do pensamento é mais importante que a regra. Depois, com calma, você volta e lapida o texto.
- Escreva sobre o que é real: Pare de tentar usar palavras difíceis (que você nunca fala no dia a dia) só para parecer mais inteligente. A verdadeira inteligência está na clareza. Escreva como quem conversa, com a mesma honestidade que você tem ao tomar um café com um amigo.
- Mude o seu consumo: A gente só aprende a escrever lendo. Mas não leia por obrigação. Leia coisas que alimentem a sua alma, que façam o seu coração bater mais forte, sejam crônicas, romances, notícias ou poemas. A leitura enche a nossa caixa d’água; a escrita é apenas abrir a torneira.
A maior vitória que você pode ter contra um sistema que o silenciou lá atrás é se recusar a ficar calado agora. A sua história, os seus medos, as suas ideias e a sua vivência como trabalhador, pai, mãe ou filho têm um valor incalculável.
Deixo aqui um desafio: Pegue um pedaço de papel ou abra o bloco de notas do seu computador ou do seu celular. Escreva um parágrafo. Pode ser um recado para você mesmo, um desabafo sobre como foi o seu dia ou uma mensagem para alguém querido. Não se preocupe com regras, não se preocupe com a caneta vermelha. Apenas permita que a sua voz ocupe espaço no mundo. A página em branco não é uma ameaça; ela é o seu maior território de liberdade.

Referências
- COLELLO, S. M. G. A escola que (não) ensina a escrever. 1. ed. São Paulo: Summus, 2012.
- FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez, 1989. (Referência sobre a leitura do mundo precedendo a leitura da palavra).
- TITÃS. Palavras. Intérpretes: Titãs. Compositores: Marcelo Fromer e Sérgio Britto. Álbum: Blésq Blom (1989).