Autor: Gustavo Figueiredo
Categoria: Desenvolvimento Humano, Educação e Saúde Mental
Maio está chegando ao fim e, para muitos de nós, essa época do ano traz um frio na barriga muito específico. Não é o frio na barriga da juventude, mas aquele aperto no peito de quem decidiu, no meio da vida adulta, que precisava mudar de rota. Talvez você esteja vivendo isso agora: a tensão de um edital aberto, a contagem regressiva para um concurso público, ou a pressão de voltar a estudar depois de anos longe de uma sala de aula.
Eu conheço bem esse cenário. Sei o que é sentir o peso nas pernas depois de um dia inteiro de trabalho no hospital ou no balcão de uma empresa, chegar em casa exausto e, em vez de se jogar no sofá, ter que abrir apostilas grossas. Sei o que é lutar contra o sono para tentar entender as minúcias da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), os artigos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) ou os fundamentos da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), sabendo que a data da prova está ali, batendo à porta.
A vida adulta não nos dá trégua. Nós não temos mais o privilégio de “só estudar”. Nós estudamos enquanto pagamos boletos, enquanto cuidamos da nossa casa, enquanto lidamos com as angústias da família. E é exatamente por isso que a pressão de passar em uma prova se torna tão esmagadora. Parece que não estamos apenas buscando uma vaga; parece que estamos apostando na nossa própria dignidade.
Mas hoje, vamos respirar fundo e olhar para esse processo com mais gentileza. Precisamos aplicar a nós mesmos o que eu chamo de Pedagogia do Recomeço.
A Ilusão do Desempenho Perfeito
Quando voltamos a estudar depois de adultos, a nossa mente costuma ser o nosso carrasco mais cruel. Se erramos uma questão de simulado ou se a nota não vem na primeira tentativa, o nosso cérebro rapidamente nos sabota com pensamentos como: “Eu estou velho demais para isso”, ou “Eu não tenho a mesma inteligência dos mais novos”.
Sempre que vejo alguém (ou eu mesmo) caindo nessa armadilha emocional, recorro a uma das leituras mais libertadoras que já fiz. No livro “Mindset: A Nova Psicologia do Sucesso”, a psicóloga americana Carol Dweck nos explica, com uma simplicidade brilhante, que existem duas formas de encarar a nossa própria inteligência. Pessoas com um “mindset fixo” acreditam que nasceram com um limite de inteligência; se falham em uma prova, sentem que são fracassadas. Já as pessoas com um “mindset de crescimento” entendem que o cérebro é como um músculo. O erro na questão de matemática ou de legislação não define quem você é; ele apenas mostra qual “músculo” mental precisa ser mais treinado amanhã.
Aprender isso tira um peso enorme das nossas costas. A prova do concurso que você vai fazer não é um tribunal que julga o seu valor como ser humano. É apenas uma fotografia do seu nível de treino naquele momento específico. Se a aprovação não vier hoje, ela será o adubo para a prova de amanhã. A Pedagogia do Recomeço é entender que o adulto não estuda para passar rápido; ele estuda até passar.
A Coragem de Estudar com Medo
Nós temos uma mania muito perigosa de romantizar o estudo. Achamos que precisamos estar motivados, com a mesa perfeitamente arrumada, tomando um café especial e ouvindo música clássica para que o aprendizado aconteça. A verdade da vida real é bem menos glamorosa. A gente estuda com dor de cabeça, estuda no trajeto do ônibus, estuda com medo de não dar certo.
Nesses dias em que o medo fala mais alto e a vontade é de jogar todas as apostilas pela janela e desistir daquela vaga no serviço público, eu gosto de deixar o silêncio de lado e colocar para tocar bem alto a música “Mais Uma Vez”, eternizada na voz de Renato Russo. Quando ele canta que “esperar não é saber” e nos lembra de que “mas é claro que o sol vai voltar a brilhar”, não é um otimismo bobo. É um choque de realidade. A música funciona como um abraço em forma de melodia, nos lembrando de que quem acredita sempre alcança, mas esse “alcançar” exige a coragem de levantar depois de cada tombo e tentar de novo, com o coração machucado mesmo.
O Conhecimento Nunca se Perde
Existe uma frase de Paulo Freire que diz que a educação não transforma o mundo; a educação muda as pessoas, e as pessoas transformam o mundo.
Seja qual for o resultado da sua próxima prova, eu quero que você tenha uma certeza absoluta: nenhum minuto que você passou debruçado sobre os livros foi em vão. O conhecimento que você adquire para passar em um concurso muda a forma como você enxerga os seus direitos, melhora o seu vocabulário, afia o seu pensamento crítico e, principalmente, prova para você mesmo que a sua capacidade de se reinventar é infinita.
A Arquitetura do Equilíbrio na nossa vida é construída assim: aceitando que somos falhos, que a rotina é dura, mas que não vamos abrir mão do nosso direito de buscar uma vida melhor.
Feche os olhos por um segundo. Agradeça pela coragem que você teve de recomeçar. Perdoe-se pelas questões que você errou hoje. E amanhã, de cabeça erguida, volte para a sua rotina de lutas e de livros. A sua vaga já existe, ela só está esperando você terminar de construir a ponte até lá.
Referências:
- DWECK, Carol S. Mindset: A nova psicologia do sucesso. São Paulo: Objetiva, 2017. (Referência sobre os modelos mentais de aprendizado e superação de falhas).
- FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. (Referência sobre a capacidade transformadora da educação e o processo de leitura de mundo).
- BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei nº 9.394/1996) e Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA – Lei nº 8.069/1990). (Documentos balizadores citados na rotina de estudos).
- RUSSO, Renato; VILLA-LOBOS, Dado. Mais Uma Vez. Intérprete: Renato Russo. Álbum: Presente (Póstumo, 2003).